Existe um terreno estranho de adentrar quando se é fã de uma obra que é o da definição. Quando se define algo, nunca se consegue alcançar a verdadeira profundidade do assunto, seja quando está se definindo, seja quando está definindo algo que gosta. Geralmente as pessoas vão tentar te convencer a gostar de suas obras favoritas, não por algum elemento de fato muito profundo, mas por algo mais banal, pela facilidade da conexão.
Veja essa obra, ela tem batalhas incríveis. Os personagens são muito cativantes. O sistema de poder é muito complexo. O worldbuilding é incrível.
Todas essas frases, embora convidativas e boas o bastante para fazer com que um bom número de pessoas deem uma chance para alguma obra, não são de fato definidoras sobre a obra como um todo. Sua extensão, temáticas, simbologias… E não estou cobrando que seja, já que ninguém tem que ter um powerpoint prévio antes de assistir uma obra. No entanto, é sintomático que essas frases e definições curtas tornem-se verdades invariáveis e inquestionáveis sobre algumas das obras mais famosas que existem, tanto essas que apresentei que possuem um sentido positivo, tanto quanto as que possuem um sentido amplamente negativo.
É então que começarei a falar sobre o tema desse meu artigo experimental: Saint Seiya.
Saint Seiya, assim como todas as obras, possuem definições positivas e negativas, mas costumo dizer que mesmo as positivas não são as mais elogiosas.
Alguns dos elogios que existem vão apenas para critérios técnicos, o que é merecido, já que o trabalho do mestre Araki e da mestra Himeno é espetacular, assim como a produção do anime foi competente a ponto de ser premiada como anime do ano em 1987, e ficou em segundo lugar no ano de 1988, perdendo apenas para o também espetacular “Meu Vizinho Totoro” do estúdio Ghibli, um filme que tem um outro tipo de produção e uma qualidade, por óbvio, superior ao que um anime semanal contínuo poderia apresentar. Além disso, é sempre destacado o primor das trilhas sonoras, onde o lendário mestre Seiji Yokoyama deixou um legado tão forte que reverbera na mente e no coração até mesmo dos fãs mais afastados da franquia mesmo nos dias de hoje.
Quando se destacam coisas boas do anime, se fala das lutas que são muito sangrentas, as cenas de impacto, talvez um discurso aqui e ali sem adentrar muito no que ele significa, ou também se fala no Ikki e como ele é incrível e tem o que os jovens chamam de “aura” onde ele é muito “hype” e por ai vai. E claro, tudo isso é muito legal, tudo isso faz parte da experiência que é assistir o anime ou ler o mangá, mas quando pego para ver alguns dos elogios, Saint Seiya parece reduzido a momentos e não as suas mensagens, discussões, simbolismos ou filosofias.
As opiniões negativas soam tão repetitivas que me sinto exaurido só de nomeá-las, mas as mais comuns são:
- O Seiya é um péssimo protagonista
- As lutas parecem RPG de turno
- O anime é velho e datado, muito lento
- O Kurumada não sabe desenhar
- A obra tem muito furo de roteiro
E eu poderia ficar aqui fazendo as mesmas defesas de sempre, mas esse não é meu intuito no dia de hoje, e sim apenas mostrar o que é mais falado não apenas dentro da própria fandom de Saint Seiya, como também pelas pessoas que estão de fora, que conhecem a obra, já tiveram algum contato e etc.
Voltando ao que se fala de positivo…
Por vezes eu me questiono: será que Cavaleiros é apenas isso? Um amontoado de frases, lutas legais e que falam sobre superação? E deixando claro, isso também não é um problema, a temática da superação é linda e cativante, mas se fosse apenas isso que cativa, não haveria razão para esta ser a obra favorita de alguém, dado que essa é uma temática que se repete em muitos outros locais.
Surge então a questão: O que torna Saint Seiya único?
E desse questionamento, surge o mais importante: O que define Saint Seiya?
Deixando claro que essa definição é pessoal, direi aquilo que eu, Damien, considero como sendo os principais elementos definidores de Saint Seiya.
- A justiça, suas definições e usos
- A fé, não apenas uma fé religiosa, mas fé como um ato de crença em algo, alguém ou um grupo
- A moralidade humana e uma reflexão sobre a existência humana
Ao meu ver, esses são os três pilares da história de Saint Seiya. No entanto, para que eu não fique preso apenas a definições frasais, explorarei um pouco cada uma dessas três temáticas e como elas se conectam.
A primeira das grandes temáticas que ronda Saint Seiya é a justiça e os diferentes conceitos que os personagens utilizam para a validação do seu próprio senso de justiça. Ao longo do arco santuário, essa temática é explorada em quatro personagens: Máscara da Morte, Afrodite, Shura e Saga/Lemur. Todos eles dividiam um mesmo senso de justiça distorcida, que via apenas a força como a validação para seus atos. É por isso que Lemur (o espírito maligno que possuía o corpo de Saga), tentava desesperadamente se legitimar não apenas como Grande Mestre, mas até mesmo como novo protetor da Terra através do uso da força. Se Atena for uma deusa fraca, se ela não for capaz de proteger seus ideais e vencer aquele obstáculo, então que direito ela possui sobre a Terra e, em especial, qual é a validade de sua justiça?
É ai que o personagem do Afrodite acaba por brilhar ao questionar exatamente o quão apta estava a Saori/Atena para fazer o que deveria ser feito. Diferente do que muitos pensam, ele não era exatamente um ser maligno, não se divertia fazendo atrocidades como era o caso de Máscara da Morte. Afrodite era um agente da justiça de Saga, era o executor de suas missões, como quando foi até a Ilha de Andrômeda para assassinar Daidalos, mas não por se divertir com a sanguinolência, mas por acreditar que isso abriria caminho para uma paz garantida pela enorme força do Grande Mestre, ao qual ele era devoto. Afrodite, em meio ao seu ideal distorcido de justiça, queria seguir cumprindo o ideal de um Cavaleiro de Atena, ou seja, proteger a humanidade.
Máscara da Morte, por sua vez, é a representação da justificativa de uma justiça distorcida. Não importa a moralidade por trás de seus atos, se você estiver no comando de tudo, suas ações serão justas pela força do seu poder e das suas decisões. É por isso que é tão interessante que, em seu diálogo com o Mestre Ancião, ele cite o Eixo da Segunda Guerra Mundial como exemplos de justiça que teriam se tornado verdadeiras em caso de vitória, o que é tão fortemente rebatido por Dokho que diz que a justiça jamais muda, mesmo pela força de alguém.
Atena e seus cavaleiros, representam uma justiça que é… Justa! Dominar por meio da força, abrir espaço para uma tirania, nada disso é visto como bom ou positivo para os Cavaleiros. Em Poseidon, quando Shiryu é confrontado por Krishna e a justiça de Poseidon, que diz que os humanos devem morrer como espécie para renascer sob o julgo divino, o personagem afirma que existem pessoas boas nesse mundo e que não são todos os humanos que apresentam atitudes malignas ou possuem essa natureza dentro de si. Esse é o ideal de Atena, é sua justiça, sua verdade.
É então que entramos na fé e ela não está desassociada da ideia de justiça.
Por que Máscara da Morte e Afrodite (desconsiderando o Shura que não é bem escrito) se voltaram para alguém como Lemur como salvaguarda da justiça?
Máscara da Morte desde sua infância era alguém de indole duvidosa, dizendo desde o princípio que ficaria do lado que lhe trouxesse mais vantagem, mas mesmo assim conseguimos ver o personagem se preocupando com Atena após Shura cortar a ponte que fez com que a deusa e Aiolos caíssem em um enorme buraco. Sua conversão para o lado de Saga não possui lá uma dose grande de mistério. Em um breve momento de descontração, o Cavaleiro de Gêmeos foi o Raul Seixas de Máscara da Morte, dizendo: “Faz o que tu queres, pois é tudo da lei”. No entanto, existe também o fator fé implícito. Não é apenas a liberdade irrestrita que fez com que ele abandonasse Atena, mas a falta de sua fé nela também. Mesmo sendo um bebê naquele momento em que estava com Aiolos, ela não podia ter feito nada? Ela não era uma deusa? Não tinha a força para isso?
O mesmo aconteceu com Afrodite. Se ela era uma deusa, por qual razão não fez o que deveria fazer? Não impediu Saga de tomar o controle de tudo, não renasceu no santuário (já que pensavam que ela estava morta), não agiu de nenhuma forma. E pior, quando voltaram a ver a deusa que deveriam seguir, sua imagem não era de Atena, mas da humana Saori Kido, herdeira de Mitsumasa Kido. Por que deveriam segui-la?
Saga/Lemur só podia se infiltrar em um solo que já fosse fértil para suas ideias. É pouco provável que os traidores não pensassem a partir da lógica da força mesmo desde antes de toda a rebelião de Saga. Foi justamente através da falta de fé em Atena, que essa justiça distorcida penetrou ainda mais fundo em seus corações e floresceu posteriormente.
Mas a fé não é uma exclusividade dos Cavaleiros de Atena. Por óbvio, tenho que mencionar a fé dos Cavaleiros de Bronze em Atena, ou mesmo uns nos outros também, mas existe para mim um fator mais importante, a fé de Atena.
Assim como esses seres humanos dotados de uma força fantástica possuem fé em sua deusa, ela possui fé neles, na sua força, nas suas capacidades. Mais do que isso, Atena possui uma fé inabalável nos seres humanos como um todo. Ela não nega nossa natureza falha, não nega nossos erros, nossas maldades e tudo o que existe de ruim no que compõem o ser humano. No entanto, Atena é diferente de qualquer outra representação divina dentro do universo de Saint Seiya, já que mesmo sabendo disso, ela ainda possui fé na humanidade. Mesmo que exista maldade no mundo, também existe a bondade. Mesmo que exista o ódio uns contra os outros, ainda existe o amor, e é justamente esse amor que representa o potencial infinito que a humanidade possui. Atena sonha com um mundo em que a humanidade possa se cuidar, se gerir, e com um mundo em que a humanidade possa ser cada vez melhor. E ai entramos no ponto de como ela vê a natureza humana em oposição aos outros deuses.
O ser humano é bom ou mau? Qual é a nossa verdadeira natureza?
Em breve essa reflexão será ampliada em um vídeo que pretendo fazer, já que ao longo da história humana muitos já reflexionaram sobre a natureza do homem, mas por agora, falemos apenas de Saint Seiya.
O pensamento divino sobre a humanidade não é único. Poseidon, por exemplo, acredita que a humanidade se corrompeu, que saíram de seu estado de obediência aos deuses, que os esqueceram e portanto tornaram-se impuros. Eles poluem, destroem, matam e corrompem tudo o que vem pela frente, sejam outros humanos, seja toda a natureza e a criação divina como um todo.
Hades acredita que a existência humana é, por essência, maligna. Somos seres egoístas, violentos, pecadores, somos a escória da criação divina e portanto, devemos ser punidos pela eternidade independentemente de nossas ações em vida, pois mesmo o mais puro humano, ainda é um humano. É por isso que existe o Mundo dos Mortos em Saint Seiya, sendo ele uma criação de Hades para que a humanidade sofra eternamente, para que sejam castigados sem qualquer julgamento justo.
Há também aqueles que são neutros em relação as ações humanas, como Apolo e Artêmis, mas que concordam que a humanidade talvez devesse ser destruída, reiniciada, que não há valor no ser mortal e nem nos seres humanos corrompidos, como se nós fossemos de fato, pragas. No Prólogo do Céu, esses dois personagens são mais incisivos sobre a humanidade, desprezando-a, mas principalmente, desprezando os humanos que tentam de alguma forma se aproximar dos deuses ou que tentam macular a existência divina, como os cavaleiros de Atena teriam feito ao derrotar Poseidon e dar um fim a existência de Hypnos, Thanatos e o próprio Hades. A humanidade aqui não deve ter livre escolha sobre seu destino, mas correntes e um julgo divino ainda mais forte.
Todas essas visões se chocam justamente com as visões da própria Atena, o que se transforma em um conflito sobre: Justiça, fé e moralidade. Essa é então a verdadeira natureza daquilo que conhecemos como “Guerras Santas”, é o que move e transforma todo o universo e o mundo de Saint Seiya desde as eras mitológicas, onde a natureza humana é tão importante, que vemos Atena se convertendo em uma com o passar das eras, esquecendo-se de sua natureza divina. O que para esses deuses é um grave pecado.
São essas três temáticas que norteiam e impulsionam Saint Seiya que puxam todas as outras. Sim, cavaleiros é sobre sacrifício, amizade, luto, perseverança, sobre acreditar em você e nos seus sonhos, sobre o bem contra o mal. É sobre as batalhas, as armaduras destruídas, o sangue, a trilha sonora, o traço, as próprias armaduras como algo legal e diferente. É sobre amor, lealdade e honra. Porém, mais do que qualquer coisa, é sobre a justiça, sobre a fé e sobre a natureza humana.
É isso que, aos meus olhos, torna Saint Seiya uma obra única, o que faz dela especial. Em meio a simplicidade que ela aparenta, existe um mundo rico e complexo de temáticas, simbolismos e filosofias, e jogar tudo isso fora em prol de definições comuns me dói. Esse texto nasceu por isso, para que eu pudesse mostrar como, aos meus olhos, Saint Seiya esconde muito mais do que aparenta, mas este é um tesouro reservado apenas para alguns, mas que eu gostaria que todos pudessem encontrar.
Por esse texto foi isso. Espero que tenham gostado e que isso possa te gerar alguma boa reflexão!
Obrigado por ler!





