Kurumada e o papel narrativo dos cavaleiros de bronze, uma análise da construção coletiva dos personagens

 


Eu prometi que faria esse texto e cá estou eu. Não vou enrolar, então vamos ao assunto: Para quem não se ligou nisso lendo Saint Seiya, o Kurumada ama fazer construções coletivas com seus personagens.

Então mesmo que ele possa trabalhar individualmente Shun, Shiryu, Hyoga, Ikki e Seiya, ele ainda os trabalha como um grupo que possui uma função x na história. O mesmo acontece com os cavaleiros de ouro, e até com os bronzes secundários

Muitos questionam o papel que os Cavaleiros de Bronze possuem atualmente, questionando sua evolução, se já deveriam ou não ser cavaleiros de ouro, seu nível de poder e etc, mas quando paro para analisar a escrita da obra, tenho para mim que o Kurumada é muito claro no que quer.



Então falemos sobre o caminho que os bronzes vem fazendo até agora.

Parte 1: Quem eu sou?

O início de Saint Seiya é muito interessante quando se fala em análise de personagem. Mesmo que os bronzes tenham recebido treinamento e tivessem conquistado suas armaduras, eles não eram verdadeiros cavaleiros ainda. Em verdade, nem mesmo mencionar o nome de Atena eles o fazem, onde tudo que fazem, em primeiro momento, é por seus motivos pessoais, honra, ou defesa pessoal.

Atena era uma figura ausente em suas vidas até aquele momento, afinal, Saga tinha o controle do santuário e Saori não havia se revelado para eles. Tirando Seiya que havia vivido no santuário, os outros apenas tinham a menção daquele lugar. Nunca saíram de seus próprios locais de treinamento direito, um mundo que era a parte do restante da realidade, onde talvez o que mais expresse isso seja Hyoga.

Eles então não conheciam o que era um verdadeiro cavaleiro, e pior, não se conheciam também! É por isso que temos Ikki como o primeiro grande inimigo dos cavaleiros de bronze. Aquela não era uma luta pelo mundo, ou carregadas do conflito humano x deuses que vemos posteriormente, mas um conflito de motivos pessoais, era uma briga familiar. Percebam, é justamente ter Ikki como inimigo em comum que os une, inicialmente apenas em uma aliança que culminou no fortalecimento da amizade, algo que Shiryu nos expressa bem. O momento de união ao final da luta de Seiya x Ikki não acontece por acaso, e não é só um recurso do roteiro para te emocionar, mas a representação desses laços e confianças, que ganham potência a partir do momento em que se entende que o primordial da construção de Saint Seiya está nas lutas.

Após Ikki contar toda a verdade para Seiya e a batalha na praia finalmente ter chegado ao fim, é que Seiya conta a verdade para Shiryu e Shun, além do próprio Hyoga que já sabia. É nesse instante que o mundo que conheciam foi quebrado, e aquela realidade passa a se transformar. Se antes eles eram órfãos que não tinham para onde voltar, pela primeira vez todos ali sabiam que existia algo além, uma família. E a questão familiar aparece de forma bem forte em Saint Seiya, mas é um assunto para outro momento. No contexto da brincadeira entre Shiryu e Seiya, Shun diz que depois de todas aquelas batalhas e a perda do sangue, era como se tivessem renascido, e isso não deixa de ser uma verdade.

E o Kurumada não poupa esforços para quebrar toda a realidade de mundo que tinham, onde agora eles se veem confrontados pela imagem de Atena. Se antes aquilo era tão distante, Saori os aproximou da situação e se colocou como a deusa, o que é rejeitado por todos. Nenhum está disposto a seguir Saori, mesmo que ela se reivindique como Atena. Eles rejeitam Saori não apenas pelo conhecimento prévio que tinham sobre a personagem, mas o fazem também para continuar em seus próprios objetivos. Seiya fala de sua irmã, mas provavelmente Shun tentaria procurar por Ikki, Shiryu voltaria aos cinco picos antigos e Hyoga para Sibéria, que é o que vemos ao final do arco dos pratas.

E aqui cabe uma coisa: Eles só se unem para salvar a Saori por honra e senso de dever. Apesar de incompletos, ainda eram cavaleiros, e salvar sua vida não significa servi-la nos moldes que ela tenta impor anteriormente.

No entanto, por mais que tentassem rejeitar Saori e aquele destino que os aguardava, o Santuário não poupou esforços para tirar suas vidas. Já completamente espalhados, algo aparece para incomodar cada um deles, e sempre na figura de um cavaleiro de ouro. Seiya e seu conflito com Aiolia, Shiryu com Máscara da Morte, Hyoga com Camus e Shun com… Afrodite! Mesmo que a figura que apareça seja a de June, posteriormente sabemos que ela revela que foi Afrodite quem assassinou Daidalos.

Ikki, nesse contexto, está um pouco diferenciado dos demais. Ele vai para as doze casas por proteção e perdão. O personagem está arrependido do que fez, de ter lutado e tentado matar seus irmãos, arrependido por olhar apenas para seu próprio sofrimento, e isso se expressa quando ele vai socorrer não apenas Shun na casa de virgem, mas Shiryu e Seiya também, algo que as pessoas frequentemente esquecem.

Voltando as motivações, percebam como mais uma vez eles se unem por sentimentos pessoais. Vingança e respostas são o principal de três deles, e temos Seiya, que está lá para entender e saber quem era Saori e pelo que ela lutava. É com esse princípio que todos eles sobem as doze casas, e é aqui que temos a sacada do Sétimo sentido.

Ele é o descobrimento de si, de sua força e missão. Para terminar de saber quem são, eles precisavam se tornar verdadeiros cavaleiros e descobrir pelo que eles lutavam, qual era o real objetivo de suas vidas!

E é por isso que a figura de Aiolos é tão importante. Ele é um ideal, algo a ser perseguido, e quem os batiza enquanto verdadeiros cavaleiros. Cientes de sua missão, do que deveriam fazer e com os laços forjados através do sangue, suor e lágrimas que derramaram nas doze casas, finalmente os Cavaleiros de Bronze descobrem quem eles são.



Parte 2: Atuando como cavaleiros

Após se descobrirem como cavaleiros, os bronzes finalmente tem uma guerra santa para chamar de sua. Se antes lutavam apenas contra outros cavaleiros por uma brincadeira divina, agora finalmente lutavam contra aqueles que eram verdadeiros inimigos.

Poseidon foi o adversário escolhido para isso, e eu vejo uma simbologia interessante nisso tudo. A primeira e mais óbvia, é a de Poseidon foi o primeiro grande inimigo de Atena. A segunda, e a que pode passar despercebida, é que é uma guerra incompleta.

Poseidon não estava em sua plena capacidade, vemos apenas a elite dos marinas e vários soldados rasos, e tudo dá uma sensação de vazio no templo do fundo do mar. Mesmo a derrota de Poseidon é diferente do que se espera (não estou falando que é ruim, eu gosto dela, só é diferente), e o papel que eles exercem é, na magnitude da história, secundário. Lembrem-se, os cavaleiros de ouro não podiam deixar as doze casas porque o verdadeiro inimigo estava chegando.

A ameaça é quase tratada como pior, mais forte, e mais urgente, deixando o conflito com Poseidon como algo secundarizado e a guerra contra Hades como o real evento principal, o que acaba por se revelar como o certo. O valor final não é diminuído, eles salvaram o mundo das forças do mal, mas era um tipo diferente de confronto e todo o contexto acidental que lhe é atribuído com uso do Kanon dá bem o tom disso. É importante deixar isso claro para falarmos então da próxima parte.


Parte 3: Ainda não é a sua hora

Hades santuário e Hades inferno são arcos em que os cavaleiros de bronze não são os protagonistas. Na fase inferno eles podem até fazer esse papel por uma questão de ponto de vista, mas a “glória” daqueles arcos não lhes pertencem, mas sim aos Cavaleiros de Ouro. Sim, acreditem, os Cavaleiros de Ouro tem um arco só deles ao contrário do que fizeram muitos de vocês acreditarem. Tudo aqui é sobre eles.

Seus dramas, pecados, relações, e o papel que possuem na defesa da terra. O ato de afastar os bronzes no início do arco é uma sacada excelente do Kurumada, pois deixa espaço para nossa atenção estar focada, mais do que nunca, nesses personagens. Afastar o Seiya, e o fato de Shiryu só ter relevância ao final dessa fase, é uma amostra de “calma, esse jogo ainda não é para vocês” que o mestre nos dá através dos cavaleiros de ouro.

É claro, a narrativa nos coloca isso através do senso de proteção da Saori, o desejo de que todos eles sejam garotos normais e toda aquela coisa que já conhecemos.

O choque das exclamações de Atena, o fato de todos ali estarem dispostos a jogar fora suas honras, méritos e glórias que tiveram em vida, o reconhecimento do amor e da lealdade daqueles que antes haviam traído a deusa e da amostra de como aqueles que ficaram eram realmente fiéis e finalmente lutavam pelo certo, o reconhecimento de Atena pela dor de seus cavaleiros, tudo, absolutamente tudo, nos é colocado desde o princípio desse arco.

E os cavaleiros de bronze sentem que falharam na sua missão por estarem fora daquele jogo. Reconhecem sua própria impotência diante do assunto, mas é curioso que seja Shion a colocá-los no caminho certo. Exercendo seu papel de Grande Mestre, a ordem dele é muito clara: Acabar com Hades. Mantenham isso em mente, por favor.

Quando vamos ao Inferno, a figura de Kanon e o orgulho que carrega como cavaleiro de ouro nos é mostrado desde sua primeira aparição.

Seiya e os outros quase não derrotam inimigos aqui. Seiya, por exemplo, só tem Caronte e Valentine na sua lista de inimigos derrotados. Shun não tem nenhuma vitória em Hades Inferno, Ikki derrota Aiacos e alguns espectros não nomeados, Shiryu tem a vitória contra o Trio e contra Rock de Golem e Hyoga derrota Iwan e supera Minos, mas o juiz morre para a hiperdimensão.

Existem vitórias de impacto, como a de Ikki, mas todo aquele rosário que vemos ter sido completamente apagado não parece ter sido obra dos bronzes. Lembro que haviam três cavaleiros de ouro no inferno: Kanon, que vemos derrotar Lune, Radamanthys, Flégias e Stand, além de mais alguns não nomeados. Dokho, que ficou apagado até o fim, mas dificilmente ele não lutou, e Shaka, que fazia a guarda de Saori. Mu, Milo e Aiolia também derrotam mais alguns espectros quando acordam, além de terem vitórias prévias ainda em Hades Santuário.

Novamente, é um arco dominado por eles enquanto grupo. O que acaba por mudar, justamente ao final. Então, depois depois de toda essa explanação, chegou a hora de falarmos sobre o Muro das Lamentações.



Já na segunda morte de Saga ele diz que não puderam fazer muito como mentores, mas que confiariam a eles a proteção de Atena, o amor e a justiça na Terra. O Muro das Lamentações vem para simbolizar isso ainda mais, não apenas na figura dos renegados, mas dos outros cavaleiros de ouro também.

Eles abriram caminho para o futuro quando perfuraram o muro, mas também abriram caminho para os cavaleiros de bronze em Hades de um modo geral.

Shion havia ordenado que eles destruíssem as ambições de Hades e acabassem com o Deus maligno, e agora, depois de todo o sacrificio e dor que tiveram que passar, é que finalmente eles assumem integralmente essa missão.

Se antes os cavaleiros de ouro ajudavam a lidar com esse fardo, carregando com eles aquela missão e iniciativas, já que Shun e Seiya se referem a eles como irmãos mais velhos, está na hora de deixar a nova geração brilhar por si. É muito por isso também que deixar esses personagens na história era difícil, pois alguém teria que assumir esse lugar.

É com essa missão em mente e com o papel que lhes foi confiado que os bronzes partem então em direção aos Elíseos.



Parte 4: O fim da jornada

Aqui vemos o resultado de todas as construções anteriores. Juntos como irmãos e amigos, juntos como verdadeiros cavaleiros, os bronzes assumem por completo o papel de proteção e defesa de Atena, arriscando mais uma vez suas vidas para salvar o mundo.

O uso das divinas mostra também como chegaram ao ápice como cavaleiros de bronze, é o prêmio final de toda uma jornada. O combate possui um final amargo, indefinição da morte ou não de Seiya até aquele momento, mas finalmente cumpriram sua missão de libertar o mundo da maldade, fazendo valer a última ordem do Grande Mestre Shion.

O mangá clássico nos entrega tudo isso. Uma jornada coesa, muito sóbria, e que coloca os protagonistas no devido lugar e tempo, não ignorando toda a construção de mundo que foi feita ao longo da obra. Não ignorando os poderes e seus controles, não ignorando a função de cada patente e nem o que eles deveriam fazer.

Existe, no entanto, uma virada na função dos bronzes na obra quando vamos a Next Dimension. Mudança essa que é fruto de uma construção que não se concluiu no clássico, mas esse é um assunto para um próximo texto.