Em dezembro de 1990 o último capítulo de Saint Seiya era publicado na Weekly Shōnen Jump, marcando o fim de um dos mais importantes e icônicos mangás já feitos. Vimos o final dos Cavaleiros de Bronze, Saori, Hades, o mundo sendo salvo e o sol voltando a brilhar e iluminar nosso planeta, mas também vimos Seiya pela última vez. Seu final terminou em aberto, algo característico do autor, Masami Kurumada, onde não dava para saber ao certo se Seiya estava realmente morto ou se teria sobrevivido depois dos eventos que vimos nos Elísios.
No entanto, tudo isso mudou em 2004, com a estreia do filme “Prólogo do Céu”, lançado como continuação dos eventos da saga clássica, trazendo de volta os personagens que tanto amamos, onde agora estávamos adentrando em um território diferente, nos envolvendo ainda mais diretamente com os deuses do Olimpo. Depois de 14 anos os fãs puderam voltar a ver Seiya e seus amigos (ou irmãos) em ação, e a versão que o filme nos apresenta do nosso protagonista é, no mínimo, interessante.
Como pode uma pergunta tão curta ser tão forte? São esses momentos que apenas Saint Seiya pode proporcionar, mas enfim, não me desviarei do assunto.
Após o cancelamento das sequências do Prólogo, vimos o Seiya atuando em outras versões de Saint Seiya, como o Ômega, Lenda do Santuário, Kotz, o live action, Episódio G — Assassin e sua sequência, Episódio G — Réquiem, mas nunca mais pelas mãos do Kurumada. Até que, 20 anos após a icônica cena que coloquei na imagem acima, o Seiya levantou da cadeira de rodas em que estava preso, mas sua aparição foi curta, não passando de meros dois capítulos em 118 que vimos ao longo de 18 anos de publicação. A continuação de Next Dimension está cada dia mais próxima e a pergunta que me vem à mente é apenas uma: qual é o Seiya que o Kurumada quer me mostrar?
A pergunta pode parecer idiota, talvez seja, mas vou dar meus motivos. Nas poucas páginas que vimos em Next Dimension, o Seiya nos mostrou algumas coisas interessantes. Seu espírito de sempre ao invadir o templo da lua sem hesitar, mas também entendimento da situação em que seus irmãos e Saori se encontravam. Diferente do Prólogo em que a punição divina era injusta, aqui eles estavam contra um Apolo, que nos foi personificado como a própria justiça, e Ártemis, que queria dar a punição mais branda possível de Saori, algo que a própria aceitava. Seiya poderia ter ido para cima, um esforço inútil naquele momento, principalmente após acordar de um coma e sem sua armadura, mas não seria estranho que fizesse isso. Ao invés disso, Seiya abaixou sua cabeça e tentou se sacrificar no lugar daqueles que amava. É verdade que, para mim, não existe atitude mais Seiya do que essa, a de ser um escudo e aquele que vai enfrentar e dar tudo de si pelos outros bronzes e Saori, mas Seiya escolher uma saída não violenta é, no mínimo, curioso.
O que mais o Seiya sentiu para chegar a essa conclusão? Culpa? Fraqueza? São coisas que podemos deduzir, mas creio que ainda seremos levados por esse caminho. É por isso que me questiono se a visão que o Kurumada tem sobre o Seiya mudou de alguma forma. Quando olhamos para os outros Cavaleiros de Bronze, todos eles, mesmo o criticado Shun, são versões diferentes do que conhecemos pela primeira vez no mangá. Ora, não estou sendo revolucionário ao dizer, eles passaram por seus desenvolvimentos de personagem, mas existem ainda mais diferenças, mesmo se compararmos com suas versões da fase inferno/elíseos. Algumas mudanças mais sutis, outras menos, mas em outro momento posso me delongar sobre isso.
O que nos garante que Seiya também não vai passar por isso? Mudanças em seus protagonistas não seria uma grande novidade. Kojiro, de Fuuma no Kojiro, tem uma brusca mudança de um arco para o outro, Jingi de Otokozaka, é um personagem que tinha uma versão de sangue quente, irritada, explosiva e agressiva nos três primeiros volumes, que acabaram por ser descontinuados, mas apresenta algo completamente diferente em seu retorno, em 2014. Ainda usa seus punhos, mas é mais sábio, mais doce com o mundo ao seu redor, dentre algumas outras qualidades enquanto personagem. Não seria estranho também se o tom da obra mudasse. Na minha leitura, já existe uma mudança de tom do clássico para Next Dimension, como também existiu de Ring ni Kakero para sua sequência, Ring ni Kakero 2.
Por mais que o Kurumada siga sendo o mestre do traço ardente, e a chama dos mangás nekketsu ainda esteja acesa em seu coração, é bem verdade que a idade muda as pessoas, suas interpretações e visões de mundo também, e sinto que isso se reflete em suas produções de 1990 para cá, mas esse é um assunto para um outro momento.
Mas e você? Concorda comigo? Discorda de mim? Coloque sua opinião e vamos conversar! Sempre gosto de saber as visões de todos sobre o assunto, e a discordância só nos faz crescer.
Por esse texto foi isso, muito obrigado por ler!


