Talvez o debate mais feito pela comunidade nos dias de hoje seja: quando vamos ter um anime?

    É normal, é claro, que pensemos apenas a respeito disso, já que Saint Seiya vem tendo um histórico no seu audiovisual bem controverso ao longo dos últimos, sem exagero, 20 anos. Existe uma longa linha do tempo de fracassos ou produtos de qualidade ruim que não é necessário que eu rememore ao leitor, já que teria que falar do Prólogo do Céu até os dias de hoje. A questão central, ao meu ver, é tentar entender onde estamos nesse mar de insatisfação da comunidade e de resultados ruins de uma franquia que ainda se sustenta mais pelo que foi construído nos anos 80 e bem início dos anos 2000 do que pelo seu histórico recente. Onde estamos? Para onde vamos? É sobre isso que falarei hoje. 




       Não virei aqui para dizer que o atual cenário de Saint Seiya é o de terra arrasada, não é. Apesar do sentimento de angústia que paira a comunidade, a grande verdade é que a franquia está se mantendo como sempre ao longo desses últimos 15/20 anos: Estável. A palavra "estabilidade", por sinal, é a que melhor ajuda a descrever o que é Saint Seiya para a Toei nesse período. É uma fonte de renda segura, que gera ainda muito dinheiro com licenças referentes ao anime clássico. Bonecos, chaveiros, travesseiros, mousepads, camisas e casacos, além é claro dos streamings, seguem sendo uma boa parte da fonte de renda de Saint Seiya para a Toei Animation e a Kurumada Pro, esta última que ainda conta com as receitas dos jogos chineses para celular, o que como comprovado pelo golpe sofrido pelo Kurumada, são receitas bem significativas. 

    Sendo assim, a Toei não tem perseguido, ao longo desse período de tempo que já demarcamos, por lucro desenfreado, mas está em busca de algo que ela e a série vem tendo dificuldades de conseguir, ou seja, um novo público. Obras como Ômega (2012), Knights of The Zodiac (2019) e Saint Seiya - O Início (2023), não foram feitas para nós que somos um público mais antigo. É claro, eles sabem que iremos assistir, por isso existem acenos para nossa audiência, mas o foco principal deles é o de buscar por uma renovação. Não é exagero dizer, porém, que essas tentativas não geraram o resultado esperado pela empresa, mas cada caso é um caso, e existem outros dois projetos no meio destes que precisam ser citados, Soul of Gold (2015) e Saintia Sho (2018). 

    Começando pelo Ômega, o projeto da Toei era ambicioso. Tendo sido lançado quatro anos após a conclusão da história clássica de Saint Seiya, o objetivo de Saint Seiya Ômega era se conectar com um público mais jovem, que a essa altura tinha novas referências de animes e mangás para consumir. Não apenas obras dos anos 90, como Yuyu Hakusho, Hunter x Hunter, Slam Dunk, mas outras obras que vieram a compor o que chamamos de "big three", (Bleach, Naruto e One Piece), além de outros fenômenos como Death Note, Hajime no Ippo, Fairy Tail e etc. Em meio a uma indústria de animes e mangás ainda mais competitiva do que nos anos 80, onde Saint Seiya teve um domínio gigantesco, a Toei e seus executivos viam a necessidade de atualizar a obra para os tempos atuais. Por isso vemos a tentativa de sinalizar para uma juventude quando os poderes dos Cavaleiros agora possuem elementos, ou quando suas armaduras já não parecem mais as proteções pesadas que vestiam, mas sim roupas, e posteriormente, armaduras muito chamativas (e até carnavalescas). 

    Com essa combinação, além de uma escola para cavaleiros, uma espécie de exame chunnin zodiacal, e um clima muito diferente da série clássica, o Ômega nasceu já rodeado pelas críticas de uma comunidade já adulta e que não queria consumir algo para crianças. E entenda, não estou julgando nesse texto, se essas novas características da obra são positivas ou negativas, apenas relatando que elas existem, e que geraram incômodo. O anime foi julgado como muito infantil e bobo por uma enorme parcela de fãs fora do Japão. Ora, por óbvio ele será mais infantil, é um anime feito para crianças. Isso não deveria desqualificar aquela produção, mas aqui já fica claro o início da desconexão entre essa comunidade já envelhecida e os objetivos da empresa de animação. 

    Porém, quando Soul of Gold foi lançada, muitos dos fãs tiveram seus anseios realizados. Uma história que se focaria puramente nos Doze Cavaleiros de Ouro, tendo Asgard como plano de fundo. A animação na época foi enorme, muito apoiada na imagem promocional de Aiolia com sua armadura de ouro divina, o que já aparece no primeiro episódio. SOG (como ficou conhecida), foi um tremendo sucesso de audiência. Lançado quinzenalmente, tendo plataforma própria, os episódios batiam milhões de visualizações, tendo o Brasil e a China como os líderes de audiência da obra. O que contrastou com esse sucesso foram as críticas recebidas. Existiam críticas as animações, aos novos Guerreiros Deuses, mas toda essa reclamação era quase sempre sufocada pelo ânimo da maioria. O sentimento de nostalgia e a emoção da reunião desses personagens eram parte da grande euforia dos grupos de facebook (o principal reduto da comunidade mesmo nos dias de hoje), onde o espaço maior de críticas surge apenas alguns anos depois. Para muitos, o mero sentimento de ver os personagens clássicos na tela já era o bastante, além de muitos acharem que a série desenvolvia mais os Cavaleiros de Ouro. 

    O maior exemplo disso foi Máscara da Morte, um personagem que era (e ainda é), desprezado por uma parte da comunidade por conta de sua força e por sua maldade, mas que encontrou na sua cena de redenção de SOG muitos defensores, não apenas do personagem, mas de sua construção na série. Afrodite foi outro personagem que teve a imagem limpada para muitos, dada sua extrema importância no enredo, sendo diretamente responsável pela principal estratégia dos Cavaleiros de Ouro em Soul of Gold. Além dessas reabilitações, o anime gerou bonecos, foi parte principal do jogo "Alma dos Soldados", e virou um marco para a comunidade. 

    Foi no espírito desse grande momento que vieram os três projetos da Toei para Saint Seiya, anunciados em 2016 na CCXP aqui do Brasil. Saintia Sho, Knights of The Zodiac (KOTZ) e o Live-Action começavam a ganhar vida, e enchiam os fãs de expectativas pelo que estava por vir. Saintia Sho quando foi anunciado, ainda em 2017, empolgou alguns pelo uso de um traço mais no estilo do lendário Shingo Araki, mas não gerou nenhuma forte reação na fandom. O anime foi pouco visto, teve um orçamento muito baixo, uma animação ruim (apesar da boa staff), e terminou com meros 10 episódios, cortando pedaços inteiros da história apenas para apresentar o Saga possuído pelo Ares com uma armadura diferente, que logo virou boneco pela Bandai. A sensação que ficou foi de que o anime foi feito apenas para esse boneco específico, e o desrespeito com a obra de Chimaki Kuori foi enorme. 

        Menos uma bala na arma da Toei. 

    KOTZ veio com enorme empolgação com o primeiro pôster que saiu, causando um agito na comunidade, que durou até o trailer. A animação 3D, em estilo mais infantil, logo levou as mais diversas críticas. Não apenas isso, a troca do gênero do Shun desagradou muito os fãs, decisão que somada a história fraca e alterada, com inclusão de cavaleiros tecnológicos e Vander Guraad, tornou a primeira temporada um complexo desastre. E o desastre não foi apenas para a audiência, mas em termos de negócios também. A parceira com a Netflix acabou após a primeira temporada, e vimos a segunda e a terceira indo para a Crunchyroll, uma plataforma mais nichada e que não atenderia o público que assistiria a série, ou seja, os adultos. KOTZ foi mais uma tentativa de não dialogar com esse público diretamente, mas assim como Ômega no Japão foi feito para crianças e para os pais assistirem com essas crianças, a série 3D da Netflix teve o mesmo intuito, e isso de uma certa forma deu certo. 

     Muitos foram os relatos de pais vendo a animação com os filhos, mas o volume desses relatos, frente ao volume enorme de críticas ao trabalho, foi desproporcional. Exatamente isso foi o que levou a Toei a ter em sua segunda temporada uma adaptação buscando mais elementos do mangá, expandindo certos núcleos (como Jabu e os bronzes secundários, Daidalos e June e etc), e seguindo a história com a Batalha das Doze Casas. Apesar da considerável melhora após isso, a série não tinha uma boa audiência na plataforma nova, era pouco comentada em grupos e canais no youtube, além de ter uma forte rejeição por conta da primeira temporada. A terceira temporada chegou ao fim em 2024, sem muito alarde no seu final, e até o momento em que escrevo esse texto, não existe sinal de que será renovada para uma quarta temporada. 

        Menos uma bala na arma da Toei. 

      Em 2023, o Live Action estreou com muita pompa no Japão, tendo evento contando com a presença dos atores e do próprio Kurumada. O elenco contava com Sean Bean (Boromir de Senhor dos Anéis, Ned Stark de Game of Thrones), Famke Janssen (Jean Grey dos X-Men), Mackenyu Arata (Zoro no Live Action de One Piece), e a promessa de transmitir para a tela das salas de cinema tudo o que existia de melhor em Saint Seiya. Uma vez mais, fracassou. O filme teve uma bilheteria pífia mundialmente, e sua salvação foi a chegada nos streamings, que apesar de ter feito o filme ser visto, o que tem de se ter dúvidas quanto a como funcionam os rankings dessas plataformas, dificilmente será o bastante para que se renove para uma sequência. Um dos executivos da Toei classificou o longa como um "fracasso espetacular", sendo a única vez que vi alguém falar isso abertamente dentro da empresa. Nem o fraco em bilheteria Prólogo do Céu (2004), recebeu esse tratamento, mesmo com o Kurumada dizendo abertamente que não gostou das decisões que tomaram com seu roteiro. 

        E lá se foi a última bala da Toei. 

    Os três projetos foram um fracasso em todos os âmbitos. Foram incapazes de criar uma nova onda de fãs, já que o Live Action também mirava isso, e ainda desagradaram e afastaram muitos dos fãs antigos que não se viam mais representados pelas séries que saíam. É então que chegamos até os dias de hoje, e percebemos que o cenário pode não ser de terra arrasada, mas ele é difícil. Difícil pois a Toei tem, a difícil de missão, de fazer o que ela não quis fazer nos últimos 20 anos: agradar a base de fãs já existente. Sem mirar o público dos Estados Unidos, sem reinventar a história, apenas animar aquilo que foi feito em mangá de forma decente e com bom orçamento. Eles vão conseguir fazer isso? Tenho minhas dúvidas. 

    Com a era atual de Saint Seiya, a Toei poderia ter duas novas balas em sua arma. A primeira e mais óbvia, é Next Dimension. Sonho antigo da Toei, que diz querer animar a obra desde a época do Ômega, Next Dimension se encerrou em julho de 2024, sendo a obra que fará conexão com a Saga do Céu que está saindo nesse momento. Ela é a continuação dos eventos que vemos no mangá clássico, e uma obra que gera muitas divergências dentro da comunidade mais "hardcore", que lê e acompanha tudo o que sai mesmo fora do audiovisual. A segunda opção é a adaptação do, aclamado, Rerise of Poseidon. Spin-off escrito e desenhado por Tsunakan Suda, encontrou seu fim em abril de 2026, e foi o spin-off recente mais bem sucedido em termos de venda, tendo seus 4 volumes no top 50 do ranking de venda semanal da Oricon. 

    Ambos tem prós e contras. Next Dimension seria, ao meu ver, a chance de se reconectar com o fã que está afastado da franquia, já que a manchete "A VOLTA DO ANIME DE SAINT SEIYA! HISTÓRIA CONTINUA OS EVENTOS DO ANIME CLÁSSICO" é não só extremamente forte, mas desperta curiosidade nas pessoas. Muitos dos que acompanharam um pouco do Next Dimension quando saía e não continuaram pelas demoras entre temporadas, certamente parariam para ver também. Tendo uma animação consistente, fazendo bonito ao menos nos momentos principais e sendo sólido no restante, esse anime já seria melhor do que 99% das coisas que saíram de Saint Seiya desde o seu revival. A própria história do Next Dimension, adaptada em anime e sem as demoras, seria melhor compreendida pelas pessoas, assim como um bom trabalho do anime em expandir cenas e usos de personagens faria muito bem ao enredo e personagens também. O que estou imaginando não é nem um anime nota 9 ou 10, mas um anime nota 7 que teria momentos de 8,5. 

    No entanto, é claro que a percepção negativa da obra, não apenas aqui no Brasil mas em outros lugares do mundo, poderia atrapalhar. Existe uma onda de pessoas prontas para criticar cada cena que Next Dimension for ter, ou mesmo seguir com as, tradicionais, ofensas ao autor e a obra original. Esse clima ruim, e um recebimento ruim das pessoas por não quererem um anime do ND, talvez até pedindo por Saga do Céu ao invés disso, poderia gerar um efeito contaminante na comunidade mais casual, o que diminuiria as chances de sucesso da obra. Infelizmente a nossa comunidade sempre sofrerá com guerras de narrativa. The Lost Canvas, Next Dimension e o Kurumada serão assuntos que sempre estarão no meio disso, e o pensamento hegemônico não é o meu, mas daqueles que pensam o oposto de mim. Enfim. Seguimos. 

    Rerise of Poseidon é uma aposta segura. É um mangá simples de se ler, que exige pouca compreensão do público e focado muito mais em batalhas. Para adaptar em anime é um prato cheio, tendo é claro uma boa produção, lutas dinâmicas e uma boa trilha sonora. Personagens mais populares como Sorento, Kanon e Isaak, além do próprio Poseidon, possuem um bom destaque, e sendo essa produção boa (nota 8/8,5), poderia acalmar os ânimos da comunidade e trazê-los para perto da franquia mais uma vez. 

    O risco? Bem, não é uma história que envolve Cavaleiros de Ouro e nem os Cavaleiros de Bronze. Os Marinas são personagens esquecidos por uma boa parte da comunidade que torce o nariz para o arco Poseidon. Mesmo que alguns deles sejam populares, o único que consegue competir com os cavaleiros de ouro (e excluo o Kanon dessa equação), talvez seja o Sorento. Rerise é uma obra que possui boas competências, mas será que o público conseguiria furar a barreira do desinteresse por Poseidon e assistir ao anime? Lembre-se, não estou falando de um público mais hardcore por Saint Seiya, mas de um público que será, fatalmente, mais casual, menos informado, menos consumidor de Saint Seiya. Eu creio que sim, mas o risco existe, além é claro de achar que qualquer comparação com Soul of Gold é um enorme exagero. Os Cavaleiros de Ouro com armaduras divinas, em termos de popularidade, dificilmente serão vencidos. 

    Com essa dura missão em mãos, a Toei (imagino eu), pensa o futuro da franquia provavelmente olhando para essas duas obras. Uma opção menos provável é a de um remake, que não acredito que vá existir tão cedo graças a existência do KOTZ. Penso também que a Toei não fará o movimento de abrir a franquia mais uma vez agora. Não teremos, por alguns anos, obras que mirem um público fora da bolha. Isso resultará em animes para nós, ou na escassez de projetos? Acredito que um anime de Next Dimension, Rerise, ou até de Asgard como venho especulando possa acontecer, mas os bastidores da franquia parecem tão nebulosos desde o golpe sofrido pelo Kurumada que já não sei mais o que pensar. 

    Minhas expectativas de anime são para anúncio esse ano ou, mais provavelmente, no ano que vem. Passando disso, já ficarei mais cético com relação a isso. Porém, em meio a esse sentimento de desconexão com a franquia que muitos sentem, deixo uma reflexão. 

    É verdade que algumas das produções citadas aqui não foram boas, ou não agradaram a grande maioria do público, mas existe uma outra gama de conteúdos de Saint Seiya que é ainda mais ignorada que as mais recentes animações: os mangás. The Lost Canvas é o ponto fora da curva nesse aspecto até a página dois, já que apesar das vendas do mangá serem boas, muitas pessoas que viram apenas o anime nunca pegaram a obra de Shiori Teshirogi para ler. O anime de Saintia Sho não foi bom, mas a história do mangá é muito boa. Além disso, temos Episódio G e suas sequências, o próprio Rerise of Poseidon, Dark Wing, Saint Mariya, novels, e obras que agregam muito ao enorme universo da obra. Obras que você poderia dar uma chance e descobrir que através de uma mídia diferente você pode ter a satisfação que estava buscando. Os mangás de Saint Seiya são, sem dúvida, sua melhor mídia há muitos anos. 

    Que aguardemos ansiosamente o destino do audiovisual de Saint Seiya. Rezo para boas notícias e resoluções. 

                                                                                                                                                Damien.